Nota

a mulher e seu caderno

nas últimas folhas em branco, escrevo. sexta-feira, 31 de dezembro, Lua minguante “que é uma fase de reflexão, de eliminação, finalização de ciclos e limpeza”, de acordo com os astrólogos. que ano! não é sobre perdão, é sobre mágoa e decepção. só o tempo pode resolver. a chave vira. neste ano escrevi – muito. cadernos – sim, no plural. foram meus companheiros. registros de sentimentos genuínos. estou presente em todas as linhas. me reconheci. assustei. reuni minha melhor e pior versão. acolhi meus defeitos. respeitei meus limites. corri na chuva. senti – tudo. aprendi sobre força e também sobre desânimo. chorar. escutar. sorrir. me posicionar. defender meu ponto de vista. estudei. me aproximei das minhas ancestrais – mulheres guerreiras. pedi ajuda. sobrevivi. estou aqui contando a minha história. cheguei longe nos últimos meses. há muito caminho para ser percorrido. sou a mulher e seu caderno.

KAUR, Rupi. Meu corpo minha casa / tradução de Ana Guadalupe. – São Paulo: Planeta, 2020. p.30

não há nada de errado com você

isso é crescimento

isso é transformação

decidir se proteger

se perder na multidão

tentar se resolver

sentir que alguém te usou

e não teve consideração

perder a esperança

ficar sem energia

isso é medo

isso é reflexão

isso é sobrevivência

isso faz parte da vida

– jornada

não é apenas fazer força

Têm uma combinação de medicações, terapia, atividade física, leituras, estudos, meditação, oração, autoconhecimento, apoio da família, das amigas… é uma lista quase infinita.

Estou fazendo toda essa “engrenagem” rodar. É sobre isso, quando digo que existe um cansaço por ter que fazer força todo o tempo, cansa, muito.

Caminho, corro, tropeço, caio, choro, descanso e levanto novamente… Está sendo assim, todos os dias, me reencontrar e respeitar o que sinto. Sendo clichê, é uma mistura de montanha russa e trem fantasma.

Um texto autoajuda né? Quero deixar registrado que não sou a mais nova “zen iluminada”, é apenas meu processo. Estou me reencontrando e aprendi que está tudo bem chorar.

texto de final de ano

Depois do almoço. Estou aqui, com fones no ouvido, escutando as músicas mais curtidas da playlist. Caderno e caneta me fazem companhia, não estou sozinha. Escrevo. As folhas em branco são em menor quantidade, escrevi muito nos últimos meses. Coisa demais. Não me vejo mais no fundo escuro, encolhida. Consigo ver luz. Estou de joelhos, ensaiando levantar. Parece texto de de final de ano, mas estamos no fim do ano mesmo.

respeito

tenho respeitado meus sentimentos – todos eles – bons ou ruins. já não me escondo com a mesma frequência de meses atrás. assumo minhas risadas e também minhas lágrimas. quando o corpo pesa eu paro – aguardo. têm dias que danço comigo mesma, em outros quase não me suporto. autoconhecimento, caminho repleto de abismos. é uma aventura me (re)encontrar, todos os dias.

Imagem

Redemoinhos

imagem arquivo pessoal, 2021

Alerta de textão na madruga

Sempre tive muito cuidado ao escutar uma história que chega, principalmente quando têm mais pessoas envolvidas. É claro que quem conta apresenta apenas uma perspectiva, aquilo que aprendemos em física, no segundo grau: “tudo depende do ponto de referência”. Considero que para me posicionar é prudente escutar todas as partes envolvidas, regra básica do direito – não sou advogada.

Me entristece escutar sobre histórias que são contadas por aí sem o devido cuidado. Viram redemoinhos enormes que nos atingem em cheio, derrubam e fazem chorar. Machuca, fere e faz doer.

Tenho alguns arranhões nos joelhos – quem não? Há uma história sendo contada, se ainda não me escutaram sinto muito, meus redemoinhos são silenciosos. Talvez um dia eu os transformem em música.

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(Canto de Oyá – Rosa Amarela)

“[…]
Minha mãe me ensinou / A ser brisa quando puder / E também me deu / A valentia de mil búfalos em uma mulher.
[…]
Que eu sou filha do vento / E não me rendo, ao mal tempo”

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texto meu. fotografia @lobo_lidiane