Nota

autoconhecimento

Mas nosso tempo é cíclico, tempo-espiral. Conhecer a Lua, as estações, o óvulo, cada um em seu ritmo, no seu ciclo e confluindo. Ser flor não é só ser esplendor. Ser flor é se permitir revolver a terra, lançar-se como semente, nutrir, florescer e reflorescer conectada com o ciclo pessoal e do universo.(Renata Stein) 

*imagem arquivo pessoal, 2022

ruas desertas

dose de reforço da vacina contra COVID-19, OK. saí cedo de casa. chamar um carro por App – no início da manhã – com ruas ainda desertas me deixa tensa. ruas cheias não é garantia de nada, eu sei. chamei o carro. era uma mulher. meu coração agradeceu com batidas compassadas – desaceleradas. assim que entrei no carro comentei que era bom ser uma motorista – mulher – que me levaria até meu destino. ela comentou brevemente: “sim”. não prossegui com a conversa. olhando olhando pela janela, a rua ainda deserta, me questionei a que horas aquela mulher havia saído de casa. sair de casa e ter como única certeza o caminho que volta para ela. lembrei das mulheres que conheço no dia a dia, encarando o mundo. tem medo. mas seguem. a gente consegue aprender com todas elas. basta ver pela janela ruas desertas. vejo poesia.

Citação

citação

SOLNIT, Rebeca. A mãe de todas as perguntas: reflexões sobre os novos feminismos ; tradução Denise Bottmann – 1ª ed. – São Paulo: Companhia das Letras, 2017. p. 28

A tranquilidade de um lugar quieto, da quietude do nosso espírito, da recusa das palavras e da agitação é igual, em termos acústicos, ao silêncio da intimidação ou da repressão, mas, em termos psíquicos e políticos, é algo totalmente diferente. O que não se diz pela busca da serenidade e da introspecção é diferente do que não se diz porque os riscos são grandes ou as barreiras são impeditivas, do mesmo modo como nadar é diferente de se afogar. A quietude está para o barulho assim como o silêncio está para a comunicação.

Citação

por Conceição Evaristo

Fonte: Universa UOL

“Aconselho a cada mulher, em 2022, a buscar descobrir sua importância na corrente da vida e a saber que se um elo se quebrar, a dilaceração, mesmo que imperceptível, é do universo, do mundo. Aconselho que cada mulher segrede no ouvido da outra, os seus planos, suas intenções, seus propósitos, desejos e direitos para que a outra escute bem e ao escutar, saiba reconhecer que a voz da sua semelhante se parece muito com sua própria voz e, assim, se reconheça na voz da outra.

Aconselho que cada mulher fique atenta à violência que nos cerca, não para sucumbir ao medo, mas para elaboração de modos de defesa para nossos corpos e mentes, a partir mesmo de nossas potências como geradoras e mantenedoras da vida. Que cada uma possa entender o sentido de sua vida e do seu trabalho nos mais diversos campos de atuação.

Quem é da cozinha, da arrumação, da limpeza, da sala de aula, afirme com seus gestos que a organização da vida cotidiana não existe sem nós. O cotidiano flui sob o nosso comando e assim, todas as mulheres vão poder exigir, com mais veemência, os seus direitos, assim como exigir respeito. O mundo nos deve esse reconhecimento, somos dignas.”

Nota

ATWOOD, M. O Conto da Aia. Trad. de Ana Deiró. Rio de Janeiro: Rocco, 2017. p.343

Fico sentada em meu quarto, junto da janela, esperando. Em meu colo há um punhado de estrelas amassadas.
Esta poderia ser a última vez que tenho de esperar. Mas não sei o que estou esperando. O que você está esperando?, costumavam dizer. Isso significava apresse-se. Não se esperava nenhuma resposta. Pelo que você está esperando é uma pergunta diferente, e não tenho resposta para ela tampouco.
Entretanto não é esperar, exatamente. É mais como uma forma de suspensão. Sem suspense. Finalmente não há tempo.

Nota

Do que li…

ATWOOD, M. O Conto da Aia. Trad. de Ana Deiró. Rio de Janeiro: Rocco, 2017. p.267

Não quero estar contando essa história.

Não quero contá-la. Não tenho que contar nada, nem para mim mesma nem para mais ninguém. Poderia apenas ficar aqui sentada, sossegadamente. Poderia me retirar. É possível ir tão longe para dentro, descer tão fundo e recuar tanto, que eles jamais conseguiriam fazer você sair.

crédito da imagem Pinterest

Lua crescente

Sinto que estamos todas conectadas. 
Dizem que Lua crescente aponta a intenção pela mudança. 
No caminho encontrei mulheres que me acolheram, 
de cada uma recebi um punhado de força. 
Memórias ligadas pela ancestralidade.
Hoje tem Lua crescente no céu.
Na minha pele também.
Mudei.
Talvez seja esse o (re)começo.
Não estou sozinha.
Todas elas estão comigo.
Cada uma com sua própria história.

créditos da imagem @trilliantattoo

Do que li…

ESTÉS, Clarissa Pinkola. A ciranda das mulheres sábias: ser jovem enquanto velha, velha enquanto jovem; tradução de Waldéa Barcellos – Rio de Janeiro: Rocco, 2007. p.93-94.

Por todas as mulheres mais velhas matreiras que estão aprendendo quando chegou a hora certa de dizer o que precisa ser dito e não se calar — ou calar-se quando o silêncio for mais eloquente que as palavras. Por todas as velhas em formação, que estão aprendendo a ser gentis quando seria tão fácil ser cruel… que conseguem ver que podem cortar quando for necessário, com um corte afiado e limpo… que estão praticando a arte de dizer verdades totais com total compaixão. Por todas as que rejeitam as convenções e preferem apertar as mãos de desconhecidos, cumprimentando-os como se os tivessem criado desde filhotinhos e os tivessem conhecido desde sempre… por todas as que estão aprendendo a chocalhar os ossos, balançar o barco — e a cama —, além de acalmar as tempestades…. por aquelas que são as guardiãs do azeite para a lâmpada, que se mantêm em silêncio no culto diário… por aquelas que cumprem os rituais, que se lembram de como fazer fogo a partir da simples pederneira e paina… por aquelas que dizem as antigas orações, que se lembram dos símbolos, das formas, das palavras, das canções, das danças e do que no passado os ritos tinham o objetivo de instaurar… por aquelas que abençoam os outros com facilidade e frequência… por aquelas mais velhas que não têm medo — ou que têm medo — e que agem com eficácia de qualquer modo…

Por elas…

que vivam muito,

com força e saúde,

e com um imenso espírito aberto aos ventos.