Citação

livro para começar 2022

SOLNIT, Rebeca. A mãe de todas as perguntas: reflexões sobre os novos feminismos ; tradução Denise Bottmann – 1ª ed. – São Paulo: Companhia das Letras, 2017. p. 22

” […] fui entrevistada ao vivo por uma mulher com uma entonação compassiva e elegante. “Então”, disse ela num gorjeio, “você foi ferida pela humanidade e se refugiou nas paisagens da natureza.” A conotação era óbvia: eu, um excepcional e deplorável exemplar, estava ali exposto, uma estranha no ninho. Virei para o público e perguntei: “Algum de vocês já foi ferido pela humanidade?”. Riram comigo; naquele momento, percebemos que todos tínhamos as nossas esquisitices, estávamos todos no mesmo barco, e que é para isso mesmo — para cuidar das nossas feridas, ao mesmo tempo aprendendo a não ferir os outros — que estamos aqui. E também pelo amor, que vem sob inúmeras formas e pode ser dirigido a inúmeras coisas. Há muitas perguntas na vida que vale a pena fazer, mas talvez, se formos sábios, nós possamos entender que nem toda pergunta precisa de resposta”.

Nota

ATWOOD, M. O Conto da Aia. Trad. de Ana Deiró. Rio de Janeiro: Rocco, 2017. p.343

Fico sentada em meu quarto, junto da janela, esperando. Em meu colo há um punhado de estrelas amassadas.
Esta poderia ser a última vez que tenho de esperar. Mas não sei o que estou esperando. O que você está esperando?, costumavam dizer. Isso significava apresse-se. Não se esperava nenhuma resposta. Pelo que você está esperando é uma pergunta diferente, e não tenho resposta para ela tampouco.
Entretanto não é esperar, exatamente. É mais como uma forma de suspensão. Sem suspense. Finalmente não há tempo.

estante vazia

algumas prateleiras da estante que estava nos planos – a que ficaria no escritório – ficarão vazias. nosso livros – os seus e os meus – não completará a biblioteca que sonhamos. foi difícil encaixotar seus livros que ainda estavam comigo. admirei cada um com os mesmos olhos que te admiravam. queria escrever um bilhete e escondê-lo entre as páginas. não escrevi, ingenuidade minha imaginar que você leria. guardar os livros na caixa me fez chorar. sensação de que estávamos nos separando mais uma vez. nós desfeitos. dói. sem coragem para te entregar – te ver de perto – pedi que deixassem a caixa na sua casa. quis evitar escutar o seu sorriso. sei que meus livros que ainda estão com você, também serão devolvidos. agora sou eu que receberei uma caixa. meus livros, que viram seus olhos pela última vez.

Do que li…

ESTÉS, Clarissa Pinkola. A ciranda das mulheres sábias: ser jovem enquanto velha, velha enquanto jovem; tradução de Waldéa Barcellos – Rio de Janeiro: Rocco, 2007. p.93-94.

Por todas as mulheres mais velhas matreiras que estão aprendendo quando chegou a hora certa de dizer o que precisa ser dito e não se calar — ou calar-se quando o silêncio for mais eloquente que as palavras. Por todas as velhas em formação, que estão aprendendo a ser gentis quando seria tão fácil ser cruel… que conseguem ver que podem cortar quando for necessário, com um corte afiado e limpo… que estão praticando a arte de dizer verdades totais com total compaixão. Por todas as que rejeitam as convenções e preferem apertar as mãos de desconhecidos, cumprimentando-os como se os tivessem criado desde filhotinhos e os tivessem conhecido desde sempre… por todas as que estão aprendendo a chocalhar os ossos, balançar o barco — e a cama —, além de acalmar as tempestades…. por aquelas que são as guardiãs do azeite para a lâmpada, que se mantêm em silêncio no culto diário… por aquelas que cumprem os rituais, que se lembram de como fazer fogo a partir da simples pederneira e paina… por aquelas que dizem as antigas orações, que se lembram dos símbolos, das formas, das palavras, das canções, das danças e do que no passado os ritos tinham o objetivo de instaurar… por aquelas que abençoam os outros com facilidade e frequência… por aquelas mais velhas que não têm medo — ou que têm medo — e que agem com eficácia de qualquer modo…

Por elas…

que vivam muito,

com força e saúde,

e com um imenso espírito aberto aos ventos.

mulheres são fortes

Terminei a leitura do livro: Um teto todo seu, de Virginia Woolf, faz alguns dias. Estou buscando conhecer um pouco mais sobre a história das mulheres, a minha – nossa na verdade. Um passado de dor, luta e também conquistas. A nossa história jamais será uma lenda, a história das mulheres é difícil de ser imaginada. Iniciei a leitura logo em seguida – para não perder o “embalo” – do livro: O conta da Aia, de Margaret Atwood – confesso que levei um susto – cheguei a me questionar se já não estaríamos vivendo como essas mulheres descritas no livro, depois da leitura penso em assistir a adaptação feita para o cinema – há filme e série. Me removi das redes sociais neste final de semana – preciso de pausa – têm muito o que ser ajustado aqui dentro. Aproveitei o off-line e apertei o play na série Maid, da Netflix, mais uma história sobre a vida das mulheres, que história. O que passaram, o que passamos e o que ainda iremos passar por sermos mulheres? Somos fortes, nossas ancestrais lutaram por nós e nós estamos lutando por aquelas que virão. Há um nó difícil de desatar, o patriarcado, sempre imbricado em nossa história. Espero que não seja apenas um desejo utópico – desfazer esse laço apertado da nossa garganta. Que sigamos fazendo a nossa história. Mulheres são fortes – não tenho a menor dúvida.

dos estudos sobre autoconhecimento

[…] autorretrato: fragmentos de uma busca de si e da sua projeção, colocando em
cena um sujeito que embora ainda não se reconheça sempre como tal, age sobre situações, reage a outras, ou, ainda, deixa-se levar pelas circunstâncias.

JOSSO, Marie-Christine. Experiências de vida e formação.2ed.rev e ampl. Natal, RN: EDUFRN; São Paulo: Paulus, 2010. p. 91