na madrugada

Me derramei na madrugada. Tudo que estava contido se rompeu com uma força imensa, a água salgada ocupou todos espaços vazios. Me abracei e encolhi. Choro de dor. Enquanto procurava entender a tempestade que chegou sem aviso, implorei para o Universo enviar um sinal. Dormi depois de tomar o remédio. Apaguei. Acordei querendo colo, desejei que alguém me acolhesse e dissesse que vai ficar tudo bem. Consegui conter a represa, só não sei até quando. Ser forte o tempo todo cansa.

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Nossos fantasmas

Que bom seria se todos os nossos fantasmas fossem “bom camarada”, como Gasparzinho. A gente têm encarado monstros, visíveis e invisíveis. Dois mil e vinte se assemelha a um trem fantasma desgovernado. Tenho a sensação de estar participando de uma película de ficção científica, em alguns momentos me sinto como um rato de laboratório, sendo testada a todo momento. Virei cobaia da vida. É sabido que o mundo virou de ponta cabeça e nossas vidas giraram 180° graus. Como diz meu aluno: “está tudo bugando”. Realmente “bugou”e não faço a menor ideia de como sair desse trem fantasma, que insiste em me assustar. Gasparzinho, você está aí?

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Caixa de azulejos

arquivo pessoal

No projeto ficou definido que este espaço seria destinado para a pia e uma bancada de mármore em forma de “L”. Lembro claramente do nosso desenho riscado num pedaço de papel. Ontem arquivando algumas fotografias me deparei com este registro , senti um nó na garganta e o gosto salgado das lágrimas que não consegui impedir que caissem. Era a imagem de um sonho sendo construído com muito trabalho e privações – escolha nossa. Fotografias mostravam o antes e depois – nossa conquista. Entreguei nas suas mãos minha caixa de azulejos e você deixou cair. Em segundos tudo se quebrou e não restou se quer um azulejo inteiro. Me machuca olhar para esta parede e saber que os meus azulejos jamais completarão os espaços vazios. Dentro da caixa estavam azulejos de quase uma vida inteira. Sonhos inteiros que seriam divididos.