Quero falar

Queria escrever um textão – expressando tudo que senti – após ler os noticiários polêmicos sobre meninas, mulheres, abusos e poder. Confesso que não consegui escrever uma linha. Me causa ânsia ler sobre os fatos – os detalhes – me fazem embrulhar o estômago, além de trazer lágrimas aos olhos. Só consigo pensar na menina, na atriz e nas outras tantas mulheres que tiveram/têm seus corpos invadidos e foram/são julgadas por uma culpa que não são delas.

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Por coincidência, a página da agenda do dia 27 de junho, traz um texto sobre o patriarcado e todo seu poder sobre as mulheres.

Recado do Universo: preciso voltar aos estudos sobre a história das mulheres, feminismo, feminino, ancestralidade e todos seus desdobramentos. Não dá para ficar em silêncio, mas é preciso conhecer para falar, e farei isso, quero falar.

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texto Lorena Cabnal @mandalalunar

“O patriarcado não nasceu na natureza, porque a natureza não gera opressão e violência sobre nossos corpos. E, se o patriarcado foi construído, ele também pode ser desconstruído. Temos que ter muita criatividade política para desmontar todas as formas patriarcais — racismo, machismo, colonialismo — porque essas violências não estão separadas. À raiz dessas opressões começou a ser gerada há milhares de anos. Precisamos chegar nessa raiz. Se só lutamos contra O racismo ou só contra o neoliberalismo — de forma isolada — , lutamos com base em opressões de apenas um lado da teia da vida.”

ORAÇÃO À NATUREZA


“Abrir a visão aos mistérios da vida é ter caminhado com os pés no chão, com as mãos no universo, com os olhos na ancestralidade, com os ouvidos musicais e com o amor no coração. É assumir a felicidade da vida custe o que custar até a morte, mesmo que a alma sangre, mesmo que o desamor maltrate e as lágrimas sucumbam. E o milagre explode: a sabedoria dos tempos! Por isso, oremos à natureza para que a justiça se faça.” Eliane Potiguara

*fonte: Manda Lunar 2022, p.137

Citação

SOLNIT, Rebeca. A mãe de todas as perguntas: reflexões sobre os novos feminismos ; tradução Denise Bottmann – 1ª ed. – São Paulo: Companhia das Letras, 2017. p. 50

Uma parte da força corrosiva do trauma consiste em sua capacidade de destruir as narrativas, e […] as histórias, escritas e faladas, têm um enorme poder terapêutico tanto para o narrador como para o ouvinte. As memórias normais, não traumáticas, são reconhecidas e integradas à história do eu em curso. São, em certo sentido, como animais domesticados, tratáveis, passíveis de controle. Em contraste, a memória traumática se mantém à parte, como um cão feroz, rosnando, selvagem e imprevisível.

tem Lua Cheia hoje

A coluna, feito rio, nasce dentro da cabeça. Escorre vértebra por vértebra até desaguar dentro do quadril. Do rio, nascem seus afluentes, braços e pernas, A pele, sem costura. Infinito. Pele-tempo, envelopa a existência da nossa dança interna. De cada poro da pele, antenas se conectam com os outros oceanos que caminham pela vida. Caminhamos . Oceano adentro. Provocamos, como uma pedra na superfície da água, ondas que vão crescendo e alcançando longe. Todos os corpos-pele se alcançando por ondas. Nós não temos um corpo, somos corpo. Somos aqui e agora. Rastros e projeções. É no corpo que a vida acontece e a intuição mora. No corpo bate o coração, mora a cicatriz da infância, dói a perda, goza o prazer, arrepia na brisa. É o corpo da morada da eletricidade e do abismo. O corpo conta a sua ancestralidade, sua luta, sua história genética. Corpo-intuição é a morada dos sonhos. Corpo-intuição é reaprender a fazer o caminho de volta, do habitar com consciência e sabedoria a sua única casa no aqui e agora, o lugar garantido. Corpo que se amplifica para que aquilo que – Significa importe para pele, estômago, garganta, ventre. À perfeição do coração bombeando sangue para todas as partes do corpo, dos órgãos trabalhando em orquestra, das reações físicas às sensações emocionais, dos sonhos durante o sono e os sonhos traçados acordados. O corpo é muita poesia.

Renata Stein

Mandala lunar 2022 : um caminho de autoconhecimento / organização Ieve Holthausen, Naíla Andrade. –1. ed. — Porto Alegre, RS : Mandala Lunar, 2021.p.91

quarto de espelhos

eu ando pelo mundo arrancando as etiquetas que colam em mim. eu não caibo nas gavetas, caixas e prateleiras que me apresentam como destino.


minha partida é inteira. sou mais desatino e revoada do que ponto de chegada. quando me vês, sou outra, e a mulher que anda firme ao meu lado é uma versão atualizada de mim.


lamento bem pouquinho se te desagrado. e ofereço: teu olhar crítico viesse com cep, te devolveria compassiva cada uma das expectativas sobre quem você supõe que eu sou.

de brinde, te enviaria caquinhos deste quarto de espelhos que estilhaço a cada dia.

por irônico que pareça, quebradinho tem mais-valia nesse jogo que nos separa à serviço da mercantia.

por todas as vezes que me senti inadequada, o meu desagravo é me amar tim-tim por tim-tim, hoje, amanhã, sempre: respirando, acolhendo e celebrando esta que vou sendo… até o fim.

Nanda Barreto

Citação

por Conceição Evaristo

Fonte: Universa UOL

“Aconselho a cada mulher, em 2022, a buscar descobrir sua importância na corrente da vida e a saber que se um elo se quebrar, a dilaceração, mesmo que imperceptível, é do universo, do mundo. Aconselho que cada mulher segrede no ouvido da outra, os seus planos, suas intenções, seus propósitos, desejos e direitos para que a outra escute bem e ao escutar, saiba reconhecer que a voz da sua semelhante se parece muito com sua própria voz e, assim, se reconheça na voz da outra.

Aconselho que cada mulher fique atenta à violência que nos cerca, não para sucumbir ao medo, mas para elaboração de modos de defesa para nossos corpos e mentes, a partir mesmo de nossas potências como geradoras e mantenedoras da vida. Que cada uma possa entender o sentido de sua vida e do seu trabalho nos mais diversos campos de atuação.

Quem é da cozinha, da arrumação, da limpeza, da sala de aula, afirme com seus gestos que a organização da vida cotidiana não existe sem nós. O cotidiano flui sob o nosso comando e assim, todas as mulheres vão poder exigir, com mais veemência, os seus direitos, assim como exigir respeito. O mundo nos deve esse reconhecimento, somos dignas.”