nomear

Constantemente lidamos com sentimentos que não sabemos nomear. Nos últimos anos busquei entender, compreender e respeitar tudo que sinto – engana-se quem pesa que é um exercício fácil – corremos o risco de encarar de frente nossa pior versão. Por diversas vezes me desconheci. Me encantei também. Ainda há muito que chacoalhar aqui dentro, muito de mim ainda é desconhecido por mim mesma. Às vezes sei dar nome a tudo que sinto, já em outras não faço a menor ideia. Ontem eu estava triste. Hoje não sei dizer o que sinto, não é tristeza mas também não é paz; não é medo mas também não é coragem; não é solidão mas também não é presença; não está escuro mas também não está claro; não é saudade mas também não é raiva. Domingo, hoje não sei te nomear.

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um dia de cada vez

crédito imagem Pinterest

O psicólogo me sinalizou para viver um dia por vez, pois, minha pressa em ficar bem – com urgência – pode comprometer meu processo de cura interior. Quero me livrar dessa dor – de coração partido – que consome meus dias. Luto comigo mesma para não chorar ou lamentar pelo que passou. Passou, mas ainda sinto e muito. Domingo é um dos dias que têm me machucado, é quando há uma pausa maior, no tempo, para encarar minhas dores. É domingo e não estou bem, mas o sábado foi um presente do Universo. Assim vou vivendo, um dia de cada vez, me permitindo sentir tudo que existe aqui dentro.

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Final de semana

Ainda é estranho não ter você no final de semana. Ansiedade que causava frio na barriga por saber que iria te encontrar. Havia um ritual. Lavar e hidratar os cabelos. Escolher a cor do esmalte e fazer as unhas. Roupa e perfume escolhidos. Tinha pão de queijo. A gente ria assistindo televisão. Segurar na sua mão ao subir as escadas. Tínhamos nosso universo. Cafuné. Ventilador. Confissões. Abraços. Beijos. Se para Clarice Lispector “sábado era a rosa da semana”, para mim a rosa da semana era sábado e domingo. Cochilo depois do almoço. Pipoca e filme. O domingo ia chegando ao fim e a saudade batia na porta para entrar. Se cuida. Boa semana. Deus acompanhe. Não era rotina. O final de semana têm sido estranho por aqui.

Nota

Clariceando na madrugada

Sei que é madrugada, o quarto ainda está escuro, mas os pensamentos já despertaram aqui dentro. Fizeram tanto barulho, e como uma música alta, despertaram a casa toda. Para Clarice Lispector, sábado é a rosa da semana, mas nada a impede de pegar suas coisas e se mudar para o domingo de manhã. Domingo de manhã, para ela, também pode ser a rosa da semana. Hoje me “mudei para o domingo”, igual a Lispector, quem sabe ele também seja a minha rosa da semana?

Áudio

Metade – Adriana Calcanhotto

Eu perco o chão
Eu não acho as palavras
Eu ando tão triste
Eu ando pela sala
Eu perco a hora
Eu chego no fim
Eu deixo a porta aberta
Eu não moro mais em mim

Eu perco as chaves de casa
Eu perco o freio
Estou em milhares de cacos
Eu estou ao meio
Onde será que você está agora?
Eu perco as chaves de casa
Eu perco o freio
Estou em milhares de cacos
Eu estou ao meio
Onde será que você está agora?

Lasanha aos domingos

Hoje tem lasanha. Enquanto separava os ingredientes juro que te senti atrás de mim, você era presença certa na cozinha. Entre um papo e outro a gente sorria. Confesso que enquanto misturava o molho no fogão, esperei por seu abraço, sempre me pegava de surpresa. Me fazia sorrir. Também senti o beijo no pescoço e sua barba me fazer cócegas. Te senti tão perto. Num delírio te pedi para passar o manjericão. Quase choro. Te vi em todos os cantos da cozinha mas eram apenas lembranças, suas e da lasanha aos domingos.